Clarice Lispector: a Esfinge do Rio de Janeiro

Em sua biografia da autora, Benjamin Moser nos conta sobre uma ida de Clarice Lispector ao Egito, onde teria encarado uma esfinge. Quando lhe perguntaram se ela havia desvendado o segredo da fera, Clarice respondeu: “não a decifrei, mas ela também não me decifrou”.

Durante toda sua vida, a escritora mais foi comparada com santa ou bruxa que como mulher que escreve. Moser diz que Maria Bethânia chegou a cair sobre seus pés num ato de referência quase divina. Clarice Lispector foi, tanto na vida como na morte, uma figura de mistério para o seu leitor - e talvez, para si mesma.

De origem pobre, a família de Clarice é da Ucrânia, mais especificamente do povoado de Tchetchelnik. No início do século XX, essa região sofreu diversos ataques dos russos aos judeus. A família Lispector, então, migraria por conta dessa ameaça. Porém, antes de deixarem a Ucrânia, Mania (mãe de Clarice) foi estuprada por soldados russos quando atacavam seu povoado. E não muito tempo depois, ela descobriu que havia contraído sífilis. Moser diz que, muito provavelmente, Clarice foi concebida para que curasse sua mãe, porque na região havia a crença de que a gravidez poderia curar a sífilis. Assim, como remédio místico para a enfermidade, Chaya Pinkhasovna Lispector nasceu em 10 de dezembro de 1920; e morreria no dia 9 do mesmo mês, quase 57 anos depois. Não é preciso saber muito sobre medicina: é claro para o leitor do século XXI que a gravidez não ajuda a curar a sífilis. Inclusive, é um fator de risco para a criança, que pode ser um neonato doente ou nem chegar a nascer. Mania morreu no Brasil, alguns anos depois da chegada da família nas praias do Nordeste, quando Clarice já tinha pouco mais de um ano. Clarice nunca superaria a morte de sua mãe, ao menos é o que parece para Moser, sentindo-se frustrada por toda vida, já que foi concebida para ajudá-la e falhou.

Assim que chegaram no Recife, seu pai trabalhava como vendedor. A família Lispector tinha pouco dinheiro e mal dava para as despesas básicas. Mas Clarice e suas duas irmãs nunca deixaram de estudar: iam a um colégio católico para meninas, onde puderam consolidar uma educação bastante rígida, mas de qualidade. Com o tempo, a família migrou para o Rio de Janeiro no fim da adolescência de Clarice. Foi lá que ela deu início aos estudos de Direito onde, à época, era a Universidade do Brasil. Nos últimos anos da faculdade, escreveu seu primeiro romance, “Perto do coração selvagem”, com o qual se lançaria no mercado editorial. Um ano depois do lançamento, já casada, deixou o país com o marido, - que conseguira um cargo de vice-cônsul na Itália. Clarice ficaria muitos anos sem voltar ao país tropical. Foi no seu retorno à Itália, depois da primeira viagem ao Brasil, que ela encarou a esfinge no Egito, ou melhor, que as duas esfinges se encararam.

Embora o título do texto remeta somente à esfinge, Clarice foi mais que isso. Foi a esfinge e Édipo ao mesmo tempo: por isso o conflito na alma. Por ser humana, tinha os segredos da consciência intrínsecos à existência do ser pensante. Já ruminava Descartes: penso logo existo, esta é nossa sina (que menos diz sobre a natureza humana do que nos revela sobre nossa condição - escravos da consciência finita e imperfeita que quer saber mais e não entende os dados e estímulos que nos chegam como vendaval). Entretanto, Clarice se destacou pois queria entender os mistérios, menos do Cosmos do que de si mesma, foi filósofa por definição. Poucos são aqueles que tentam entender-se a si mesmos com a ferramenta tão primitiva e básica que é a introspecção, sem recorrer ao sobrenatural dos devaneios (aos quais todos nós estamos sujeitos). 

Clarice tentou de tudo para desvendar a sua própria esfinge. Desde a religião até o misticismo, foi bruxa e santa. Aqui, eu tento aclarar um pouco a analogia para os não familiarizados com o mito de Édipo e a esfinge: diz o mito que todo homem tebano (nascido na cidade de Tebas, hoje, na Grécia moderna) que se colocava frente à esfinge deveria desvendar seu segredo; se não, seria comido ali mesmo. Édipo foi o único que soube a resposta para o enigma da fera, que era algo como: “que animal anda pela manhã sobre quatro patas, à tarde sobre duas e a noite sobre três?”. Édipo respondeu: "o homem". Ao ver seu enigma desvendado, a esfinge se lançou de um precipício. Édipo, então, pode reinar como monarca de Tebas. Entretanto, a rainha da cidade era sua mãe e, sem sabê-lo, casou-se com ela e tiveram filhos. Após descobrir seus infortúnios, Édipo arranca (ou fura, depende da versão) seus próprios olhos e passa a viver como mendigo até o dia de sua morte, uma morte heroica e divinizada, pelo oráculo de Delfos. Édipo deixou uma vida de infortúnios para tornar-se herói.

O herói grego simboliza o filósofo; a esfinge, a natureza. O que Clarice desenvolveu ao longo de todas suas obras foi uma busca pela própria existência, pelo fim último da vida e das coisas. Mas nos resta indagar-nos se, no caso Clarice, quem ganhou foi Édipo ou a esfinge, já que ela continha os dois dentro de si. Deixo ao leitor a dúvida. Arrisco-me em um aprofundamento da analogia: parece-me que a escritora, já muito madura quando escreveu “A hora da estrela”, não era a mesma experimental, confusa, mística e quase religiosa de “Água-viva” ou “A paixão segundo G.H.”. Sua última novela publicada em vida é algo mais concreto e engajado, menos confuso, contudo não menos poético. De fato, é uma obra mais fácil de ler que suas anteriores, exceto alguns contos. Foi com essa escrita mais acessível que Clarice se popularizou - aqui uso a palavra com muitas exceções. 

A escritora madura deu um final trágico a sua mais ingênua protagonista: Macabéa foi morta logo após sair de uma cartomante que lhe dizia muitas coisas boas. Com a morte da menina ingênua, esperançosa, enganada pela cartomante, morreu a escritora viva. Os dois fatos se deram tão conjuntamente que não é possível saber qual sucedeu qual. Clarice Lispector já sabia sobre seu câncer nos ovários quando escrevia a história de Macabéa. Não havia mais esperanças? Por isso, o final tão trágico? 

Creio que o Édipo Lispectoriano indagou-se tanto sobre os enigmas da Esfinge Clarice que, no final, pode-se dizer que a esfinge decidiu pular do penhasco. Em “A hora da estrela”, há bem menos enigmas e mais respostas de uma autora quase engajada em mostrar as misérias da vida de Macabéa, revelando-nos muito de seus pensamentos acumulados por anos de introspecção. Também como Édipo, Clarice sofreu por querer indagar-se pelo enigmas da natureza, a angústia e a desordem dos pensamentos incompreendidos, do “eu” que quer se encontrar na multiplicidade de outros, da matéria que transpassa e quer deixar de ser no agora para submergir na eternidade.

O preço é ter de lidar com um estado muito próximo da loucura. Moser nos conta que, já perto do fim da vida, no seu apartamento no Rio de Janeiro, Clarice usava remédios muito fortes para poder dormir, a mente não descansava. Quando finalmente dormia, nada lhe fazia acordar. Assim foi o incêndio que quase lhe custou a vida. Por sorte, só lhe queimou a mão. O que Moser chama de “maior autobiografia espiritual do século XX”, acredito ser mais apropriado, em seu lugar “maior autobiografia filosófica de introspecção do século XX” (o leitor pode achar que são sinônimos, mas não o são). Assim é o conjunto monumental das obras de Clarice Lispector, cuja essência se baseia nas origens da filosofia, que irrompem pelo assombro e pelo espanto, não só na escritora ou em suas personagens, como igualmente no leitor.

Nos espanta a morte de Macabéa, nos assombra imaginar G.H. comendo uma barata, ou a cena do cego mascando chicletes; contudo, mais do que isso, nos faz refletir sobre a finalidade da própria existência, origem atemporal da filosofia que nos traz Clarice. Mesmo que em seus livros não seja possível encontrar máximas sobre o homem ou a natureza à maneira de Kant ou Aristóteles, é possível encontrar o mais puro da filosofia: a origem do filosofar. Ler Clarice nos faz questionar nossa própria existência, e sua prosa poética nos agrada, nos sublima. Por mais que algumas vezes a autora possa parecer hermética, por dar muitas voltas e poucas conclusões, há que tratar de encontrar ali menos as respostas e mais as perguntas. Clarice não é religião, não é mito, nem lenda; é escritora, filósofa e, por fim, heroína da literatura brasileira, heroína post-mortem como Édipo.

Imagem de destaque: Sofia Lungui 
Texto publicado originalmente na revista A Hora da Escrita.

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