As influências literárias em O Rei de Amarelo e o seu legado

O Rei de Amarelo, de Robert W. Chambers, teve sua primeira tradução para o português publicada em 2014, pela editora Intrínseca. Ela surge como uma “nova-velha” obra: foi publicada originalmente em 1895, influenciou diversos autores posteriores, como nós veremos a seguir, mas recebeu influência de outras obras e correntes literárias no próprio século XIX em que foi escrito. E está sendo redescoberta agora.

Chambers trouxe à tona, nessa coletânea de contos, um gênero literário que, posteriormente, passou a ser nomeado como weird fiction, um terror cósmico. Nos contos interligados do autor, encontramos uma mistura de enredo futurista com a atmosfera decadentista do final do século XIX. Os quatro primeiros contos têm em comum, no enredo, uma peça de teatro que enlouquece aqueles que a leem, e ela se chama também O Rei de Amarelo.  

Ler a obra de Chambers é quase o mesmo trabalho que o de um detetive, mas decifrar o discurso presente no livro, dentro da chamada Mitologia Amarela, é um desafio distante de ser concluído. Por isso, a ideia desta lista ainda não é identificar somente o que seria essa Mitologia Amarela – que, mais tarde, surgiu como o chamado Mito de Hastur, Carcosa ou de Cthulhu, o conjunto de deuses “antigos” e lendas criadas por Lovecraft – mas mostrar quais foram as influências que Chambers pode ter recebido e quais ele originou. Além disso, a ideia é trazer obras que não são muito populares e ir recriando o cenário amarelo.

Durante a leitura da obra, o que ocorre é que podemos entender o conteúdo da peça O Rei de Amarelo como transgressora: ela inaugura uma nova realidade na vida do personagem, na qual vemos que a existência humana é mais complexa e frágil do que o cenário social poderia indicar. Nem por isso a peça será uma benfeitora na vida dele. Ela transgride suas certezas e noções da vida mundana para mostrar a ele que a vida não é constituída por fases a serem superadas ou meras reputações. Ela pode ser mais turbulenta, porque se mistura a inúmeras vidas e passados, são realidades paralelas. Assim, é quase um sonho ininterrupto, com humanos passando por desesperos que são uma constante. Por isso, creio que a própria mente humana pode ser a Carcosa do Rei, constituída por fatos e sonhos. E o terror existe ao se constatar que estariam encarcerados numa vida que já carrega o sonho e a realidade sem divisões.

Assim, foi por meio das indicações das notas de rodapé feitas por Carlos Orsi, na tradução para o português, que passei a procurar as obras citadas por ele para entender o que seria Carcosa, Hastur, o rei, o verdadeiro terror que encontramos na narrativa. E acabei me deparando com contos e livros que revelam quase uma tradição ao mencionar esses nomes. É o que você verá a seguir, com os comentários da minha leitura das obras.

A Máscara da Morte Rubra, de Edgar Allan Poe (1842)

Esse conto foi publicado em 1842 e, definitivamente, influenciou Chambers na composição da figura do Rei quando ele surge no poema que inaugura a edição, pois, no poema, o Rei possui um manto em retalhos. Além disso, Chambers usa no primeiro conto o termo “Máscara Pálida” que foi incorporado na Mitologia Amarela, pelos autores que vieram depois, como uma máscara que o rei, ou um emissário dele, usava. E essa máscara teria semelhanças com o enredo do conto de Poe. Neste, o Príncipe Próspero resolve se fechar em um castelo com alguns dos nobres da corte para evitar ser contaminado por uma espécie de peste que vinha se alastrando, a Morte Vermelha (ou Rubra). Mas, quando Próspero concede uma festa em que todos devem usar uma máscara, há um ser desconhecido que surge entre os convidados, portando uma máscara da qual escorre sangue e mancha as vestes em retalho. A criatura parece ser o terror e a Morte Rubra personificados, por isso, se parece com a ideia do Rei, que espalha a loucura como uma peste.  

Pode ser lido em português em Contos de imaginação e mistério, da editora Tordesilhas.

Ilustração de Harry Clarke


Le Roi au Masque d’Or
(The King in the Golden Mask), de Marcel Schwob (1892)

O Rei na Máscara de Ouro é o primeiro conto que dá nome à coletânea de Marcel Schwob, e foi publicado originalmente em 1892. Ele tem grande semelhança com o conto de Poe e, novamente, a atmosfera sombria da figura que desconhecemos do Rei, na peça que os personagens leem no enredo de Chambers. A história é bem curiosa e mostra um rei que segue uma regra de seus antepassados: ele deve usar sempre uma máscara de ouro e, seus súditos, as máscaras com as expressões que lhes convêm. O rei entra em crise, porém, quando um mendigo passa pelo castelo e insinua que o rei era enganado pelo mundo por nunca ter visto o rosto dos outros, e nem conhecer a própria face.

A obra foi traduzida em 1976, pela editorial Estampa.

O Papel de Parede Amarelo, de Charlotte Perkins Gilman (1892)

Este conto é um marco na literatura feminista norte-americana e está na lista porque foi publicado três anos antes de O Rei de Amarelo. Nele, a temática assemelha-se ao enredo de Chambers, e é possível que ele tenha lido ou conhecido a sua polêmica. A cor amarela é predominante pela forma de um papel de parede que Jane, a protagonista que narra a história, passa a notar que muda de aparência. Ela vê sombras, novos rostos e formas ganhando vida. O conto foi criticado na época por um médico, que disse que sua leitura era perigosa para pessoas com “distúrbios mentais”. A questão é que a autora escreveu a história justamente para retratar o terror pelo qual ela passou, e como é ser reprimida pelo marido ao apresentar sintomas de depressão após começar a vida de casada e ter um filho.

O Papel de Parede Amarelo ganhou tradução em 2015, pela Balão Editorial, por Flávia Yacubian

Ilustração de Noumeda Carbone


Haïta, O Pastor, de Ambrose Bierce (1891)

Neste conto, publicado por Ambrose Bierce em 1891, é inserido pela primeira vez o nome Hastur, que teria inspirado Chambers a usá-lo em sua obra. Em Bierce, Hastur teria sido derivado da província espanhola Asturias, e lembra a sonoridade de “pasture” - e, justamente, o personagem deste conto é um pastor. Chambers usa Hastur como o nome da cidade onde Cassilda e Camilla residem. Elas são personagens que existem apenas na peça O Rei de Amarelo que os personagens leem, e nós só recebemos as referências sobre elas por meio de alguns versos no início dos contos, que indicam serem os trechos do ato II que provocaria a loucura em quem os lê. E ainda, no conto A Demoiselle d’Y’s, Hastur, é o nome de uma moça que parece exercer um controle no protagonista. Ela é mais do que uma forma humana, quase uma viajante do tempo. Da mesma forma, assim é a personagem feminina nesse conto de Bierce. Nele, Haïta se depara com uma jovem que depois será nomeada Felicidade, aquela que ele nunca poderá ter ao seu lado como esposa.

An Inhabitant of Carcosa, de Ambrose Bierce (1891)

O conto de Bierce, publicado em 1891, foi a introdução do nome Carcosa, uma cidade que o personagem busca como salvação, mas logo descobre que a morte o levou e que essa não basta para que um homem deixe de existir. Por isso esse habitante perambula pelas terras em busca de Carcosa, o lugar ideal para usufruir da imortalidade. Carcosa derivaria de Carcassonne, cidade que se situa na França, cheia de muralhas, castelos com uma arquitetura medieval. Bierce também usa Hali como o nome de um profeta, que será citado por Chambers. Mas na obra desse, será o nome do lago em que a cidade de Hastur foi construída e onde Cassilda mora, na peça fictícia O rei de amarelo. Além disso, Hali é o nome árabe para a constelação de Touro, na qual existe Híades e Aldebarã, mencionadas no poema e no conto de Chambers como sendo estrelas negras que ficariam acima de Carcosa, onde o Rei habita.

O conto ganhou uma tradução para e-book por Ana Resende, para a Balão Editorial. 

Carcassonne, de Gustave Nadaud

O poema teria inspirado também Chambers a escrever o seu poema introdutório à coletânea. No poema de Nadaud, o eu lírico espera encontrar Carcosa, essa cidade perdida e existente no imaginário daquele que sonha com quase uma utopia. Carcassonne se apresenta como uma Babilônia, onde se encontra o descanso de uma vida cheia de erros. O eu lírico relata que seus parentes conheceram cidades, mas ele não viu Carcassone, apenas depois da morte. A questão é que ele termina o poema dizendo que “Cada mortal tem sua Carcassonne”, e isso faz pensar se ela existe na própria palavra ou na mente humana como artifício.

Para ler o poema completo em inglês, clique aqui.

Desenho de Carcassone, de 1492, encontrado por Jean-Pierre Cros-Mayrevieille, na coleção Gaignières, da Biblioteca Real


Rubaiyat
, de Omar Khayyam

A versão em inglês da seleção de poemas de Khayyam (1048-1131), originalmente em persa, foi feita por Edward Fitzgerald, em 1859, o que deu a chance ao Ocidente de conhecer a obra do poeta. A palavra rubaiyat, derivada do árabe, significa “quatro”, um poema com uma estrofe de duas linhas, com duas partes cada. Na obra, Khayyam exalta a beleza da vida e a possibilidade do homem em transcendê-la pelo vinho ou até por um livro de poesia, gozar a vida antes de se tornar pó, e acrescenta ter ouvido as razões sobre o universo de um Doutor e de um Santo, para sair da porta tão crente quanto ao entrar. O eu lírico diz ter passado pelos Sete Céus – as sete artes liberais – e não conseguiu resolver os enigmas do universo, nunca conseguiu desatar “o nó do Humano Fado”. Duas estrofes aparecem no início dos contos O Paraíso do Profeta e O Pátio do Dragão, e introduzem a impossibilidade dos protagonistas de Chambers em entender o significado do tempo e desse mundo alternativo que aparece em sonhos ou em pesadelos coletivos.

Para esse livro, há as traduções pela editora Topbooks, Garnier e UNESP.

Salomé, de Oscar Wilde (1891)

A referência à cor amarela no título da obra de Chambers e nas vestes do Rei é por causa do significado dela no século: era o símbolo da loucura, da boêmia, do amor misturado à luxúria. Livros proibidos tinham a capa com esse tom. E o frisson causado pela obra de Chambers foi tão grande, no momento de sua publicação e mais ainda entre os autores seguintes, que se passou a atribuir a algumas obras o mesmo teor de loucura que há na peça do enredo – Salomé, de Oscar Wilde, é um exemplo. Nela, Salomé exige ao rei ter a cabeça de São João Batista na bandeja por um capricho, já que ele havia se recusado a beijá-la. Mas Salomé só consegue que seu desejo seja atendido após executar a Dança dos Sete Véus. A obra de Wilde e o perigo na forma da dança de Salomé teriam inspirado Chambers a inserir uma peça insana e um rei com vestes amarelas na sua obra. E, mais ainda, em O Retrato de Dorian Gray, de Wilde, há um livro amarelo que fascinou o personagem, que, por sua vez, pode ter sido Às Avessas, de Huysmans. Há toda uma literatura “amarela” no século XIX, apresentando esses livros dentro de narrativas quase como transgressões na vida dos personagens.

A tradução pode ser encontrada pelas editoras Peixoto Neto, José Olympio e Landy.

Ilustração de Aubrey Beardsley


OS SETE VELHOS, DE CHARLES BAUDELAIRE (1857)

Não sabemos se Chambers, de fato, leu o poema Os Sete Velhos, de Baudelaire, em As Flores do Mal, mas a semelhança com a atmosfera dos contos Emblema Amarelo e O Pátio do Dragão é surpreendente. Em ambos, encontramos a única forma daquele que pode ser o emissário do Rei ou uma de suas formas, já que a criatura não veste amarelo, mas anda com trapos, parece ter uma pele de cera branca e os persegue, seja tocando órgão numa igreja e nas ruas, seja nos sonhos do protagonista. O poema revela versos que poderiam muito bem estar no enredo de Chambers e, ao final, parece revelar que o eu lírico se encontra em um mundo perturbado, com sua alma dançando “sem mastros, sobre um mar fantástico e sem bordas!”, e que esse ser que o incomoda vai “não se sabe para que outro mundo”. A razão se perde a partir do encontro na rua enevoada com um velho de trapos que “pareciam reproduzir a cor do tempestuoso céu” e que tem a silhueta “quebrada” e leva um bastão que lhe dá um ar mais nefasto.

O poema pode ser lido aqui, em inglês, e traduzido para o português na edição de As Flores do Mal, da Nova Fronteira, por Ivan Junqueira

H.P. Lovecraft (20/08/1890 – 15/03/1937)

São algumas as referências que Lovecraft teria feito ao universo amarelo de Chambers. Sabe-se que o autor teria lido a obra por volta de 1927, quando seu estilo já estava bem definido e já havia criado Necronomicon, este livro também perigoso como a peça. Na introdução, Carlos Orsi diz que em apenas Um Sussurro das Trevas (1931), Lovecraft citou Hastur, mas que a Mitologia de Cthulhu acabou incorporando Chambers por meio de August Derleth, quem os relaciona no conto O Retorno de Hastur, e passa a instigar o interesse de outros autores (e leitores também) a compor uma Mitologia Amarela próxima a de Lovecraft. Mas, nas minhas leituras, dá para encontrar certas semelhanças entre os contos Dagon, Ar Frio e O Modelo de Pickman, de Lovecraft, e O Pátio do Dragão, Emblema Amarelo e A Máscara, de Chambers. Há o protagonista, que é um pintor, desejando encontrar no grotesco a beleza em sua forma pura, mesmo que precise compactuar com os submundos dúbios da ciência como sinônimo de encontro com a imortalidade ou o registro de criaturas estranhas. Além disso, tem a existência de uma atmosfera de terror por conta de um emissário do rei, ou uma criatura de tentáculos, que se faz como uma ameaça permanente.

De Lovecraft, há edições com tradução para o português da Hedra, DarkSide, Martin Claret e Nova Fronteira.

More Light, de James Blish (1970)

Este conto de James Blish, publicado em 1970, é a tentativa mais fiel de criar a famosa peça O Rei de Amarelo. Blish foi leitor de Chambers e tentou compor a peça, na qual Hastur é a cidade em outro planeta em que a rainha Cassilda e sua filha Camila residem. No início do conto A Máscara, temos um dos únicos trechos que Chambers deixou registrado na sua coletânea como se fosse a tão temida peça:


Camilla: O senhor deveria tirar sua máscara.
Estranho: É mesmo?
Cassilda: É mesmo, está na hora. Todos tiramos nossos disfarces, menos o senhor.
Estranho: Eu não estou de máscara.
Camilla: (Horrorizada, em particular para Cassilda) Não é máscara? Não é máscara!”

H. P. Lovecraft enviou cartas a Blish e o autor William Miller, nas quais ele dizia ser uma tarefa complicada e insuficiente tentar criar um Necronomicon, essa obra que assustaria por revelar as verdades mais sombrias da existência. Mas Blish aceita a tarefa de tentar constituir a peça de Chambers, e o resultado é satisfatório para quem tem curiosidade de vivenciar a leitura como se fosse um personagem de Chambers entrando em contato com a tão perigosa peça.

A Maldição do Cigano, de Stephen King (1984)

A obra de Stephen King conta a história de Billy Halleck, um advogado que vê sua vida amaldiçoada quando atropela uma velha cigana. O enredo não tem relação direta com Chambers, no entanto, é interessante apontar o fato de haver um bar chamado Hastur, que é destruído em um incêndio e, em seu lugar, é construída uma loja de produtos alternativos chamada O Rei de Amarelo.

O livro foi traduzido pela Suma, por Louisa Ibañez.

A Study in Emerald (Um Estudo em Esmeralda), de Neil Gaiman (2003)

O conto Um Estudo em Esmeralda coloca o detetive Sherlock Holmes e seu amigo, Dr. Watson, numa atmosfera inspirada no Mito de Cthullu, de Lovecraft. Gaiman cita Carcosa na passagem em que Watson relata ter assistido uma peça. O conto traz o assassinato do príncipe da Boêmia, Franz Drago, sobrinho predileto da Rainha Vitória, na Londres do século XIX, em circunstâncias muito estranhas, indicando a presença de possíveis monstros que existiriam à espreita, atacando desde o princípio dos tempos. Esse tipo de terror permanente, de uma criatura desconhecida, existe também no fato de não sabermos a origem de Carcosa e os poderes do rei, que os exerce por uma simples peça teatral. Além disso, Hastur é o nome de um anjo caído no livro Belas Maldições, de Gaiman e Terry Pratchett.

O conto foi disponibilizado online pelo autor, aqui

True Detective (1ª temporada – 2014), de Nic Pizzolatto

A série da HBO True Detective contou, em sua 1ª temporada, a história de dois detetives, Rust Cohle e Marty Hart, que precisam encontrar um assassino em série em Louisiana. Os oito episódios mostram diversas linhas do tempo durante os dezessete anos em que os dois estiveram envolvidos na investigação. O crime parece estar relacionado a uma seita religiosa que promete um encontro com o Yellow King (O Rei de Amarelo), por folhetos distribuídos entre as cidades. Uma das vítimas o tem em um caderno e sua morte apresenta um teor simbolista, quase um sacrifício às entidades. Aqui, o curioso é ver como alguns elementos da obra de Chambers são apropriados de forma inteligente. Encontrar Carcosa é quase o mesmo que olhar para o universo puro. A condição humana é explorada na série nas várias falas céticas de Rust e nos atos dos próprios personagens. Louisiana, tão inóspita quanto o deserto que vemos no conto As Demoiselles d’Ys, é opressora e cheia de camadas, como Carcosa.

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