Sobre a ficção

Eu diria que a tarefa de definir o que é ficção pode ser a mesma que definir o que é verdade, ou realidade. Ambas dependem do enunciador, e possuem como matéria as palavras. Ademais, muitas vezes, são perguntas muito mais filosóficas que cientificas e de origem pessoal. Entretanto, podemos imaginar uma definição a partir dos grandes pensadores ocidentais, e é isto que pretendo fazer neste breve, e sintético, texto sobre teoria literária. Muitas ideias são minhas, outras de Cesare Segre, outras das aulas que frequentei na universidade. 

É necessário acercar-nos dos principais conceitos de ficção desde a Grécia Antiga. Comecemos por Platão e Aristóteles. Havia nos dois gregos a clara concepção de ficção como imitação idealizada da realidade, o que Aristóteles chamou de mimesis. 


Por sua vez, Platão se dedicou em diversos de seus diálogos à poesia, à arte e ao poeta. Sem dúvidas, o filósofo já havia entendido o poder da ficção, ao dizer na República que boas lendas são fundamentais para a construção de um Estado ideal. Sendo as lendas escritas nas epopeias de Homero e Hesíodo de pouco valor moral, ao representar os Deuses e Heróis com comportamentos injustos, seria necessário construir uma nova lenda que soubesse expressar e educar as novas crianças sob os novos ideais de justiça que surgiam com o novo Estado. Com Platão, o poder da educação que nos proporciona a ficção é evidente desde então, sendo fundamental para um Estado em formação utilizá-lo Com efeito, assim foi com a Eneida, de Virgílio, ou tantos outros textos ficcionais escritos por nações recém nascidas entre os séculos XIX e XX. Ademais, já era claro para Platão o caráter mentiroso da ficção, em especial, as que não serviam para a paideia. Aristóteles mantém muito do raciocínio de seu mestre. Vê nas obras poéticas de ficção o universal mimetizado, ou seja, sob uma imitação idealizada da realidade. E opõe o poeta ao historiador, enquanto este trataria do particular aquele trataria do universal. Há aqui uma observação importante, na antiguidade ser historiador não significava tratar dos assuntos, necessariamente, de maneira imparcial e objetiva, sem uso de mitos para a explicação, o que hoje entenderíamos como um texto fantástico, para os gregos era história sumamente descritiva. Muitas das obras dos historiadores gregos levam em conta a mitologia como fator tão real como o que hoje nós atribuímos às da Relatividade Geral de Einstein. A linha entre o real e o ficcional, entretanto, era clara. Eles sabiam, com espantosa certeza, o que era realidade e o que não. Muito embora sua realidade, para qualquer um do século XXI, nos possa parecer mais próxima a uma ficção de Hollywood. Esse é um ponto no qual Segre põe ênfase: os textos são lidos de maneiras distintas ao longo de sociedades localizadas em espaços e épocas diferentes da qual foram, primeiramente, escritos. Tendo uma noção clara do que era ou não realidade, Platão pode assumir que a ficção era mais que nada uma ferramenta de educação, um exercício para a mente, tal como os de matemática, que de tanto treinar nos pode formar homens justos - ao menos segundo seu conceito de justiça. Dessa forma a ficção seria uma maneira de moldar a realidade,  tornando-a como deveria ser, para um propósito claro e bom. E assim se distinguiria de uma mentira ruim qualquer. 

O grande poeta romano Horácio, em suas epístolas, escreveu uma espécie de poética prescritiva em que versou menos sobre o que é ficção e mais de como ela deve ser. No mesmo texto, diz ele que o poeta de ficção deve escrever algo não só mimético, mas verossímil. Deve ser algo credível o que se escreve, não só imitativo. Ou seja, a ficção pode deformar a realidade, mas com limites. Segre aponta que esta similitude menos diz respeito à realidade, e mais aos modelos pré-concebidos anteriormente. Tento explicar-me de uma maneira melhor: se espera que um texto imite aos demais, devendo ser verossímil em comparação ao seu gênero. Ninguém espera que num romance amoroso apareça uma nave espacial com pôneis. Não é verossímil, nem com a realidade nem com o gênero. Entretanto, se a ficção é do gênero de terror, é mais que aceitável que haja monstros como vampiros nela. 

Quintiliano é outro pensador que aportou uma distinção interessante para a ficção, distinção externa, ou seja, excludente por oposição a outros tipos de texto, não por construção interna. Há entre a ficção e a retórica um laço de contiguidade que até hoje é de difícil dissociação, já que ambas utilizam da invenção do orador ou escritor. Quintiliano diz que é do âmbito da ficção os textos verossímeis com a finalidade de deleite, enquanto à retórica pouco lhe importa atingir este fim. 

Este conceito da verossimilitude reinou por muitos anos até a sua ruptura com os realistas e naturalistas do século XIX, quando a idealização já não lhes fornecia deleite, mas sim frustração. Além disso, o contexto histórico de revoluções sociais não permitia outra coisa que uma análise minuciosa da sociedade e da realidade que lhe fulminava. Lemos Balzac e temos a impressão de ter um relato mais que verossímil nas mãos, quase objetivo e jornalístico da vida parisiense de seu momento. Os realistas se aproximaram da realidade, e se afastaram do fantástico, mas ainda assim havia a criatividade, mesmo que sob as grades de uma realidade impositiva. O século XX, entretanto, foi decisivo para mudar a nossa relação com a ficção. A ideia de Segre, que sintetizo aqui, se basa na ciência, que ao longo dos dois séculos anteriores significou a estabilidade da matéria e do conhecimento sólido, e que neste último século do milênio se desvaneceu na relatividade da verdade. Foucault é o grande teórico que identifica, já nas últimas décadas, a relatividade da verdade do discurso. A física quântica, o autoritarismo, a psicanálise, a descoberta do DNA, tudo isso fez da própria realidade uma rede frouxa e com buracos. Não havia mais uma realidade fixa para servir-se de base para a imitação. Então, a partir do século XX, aponta Segre, a ficção explora os furos da realidade, e fica até difícil dizer se é ficção ou não, posto que não sabemos.. As obras de Kafka ou Borges são um bom exemplo. Este último escreveu brilhantes textos, até hoje, não temos certeza se devemos considerá-los ensaios ou contos de ficção, principalmente seus textos sobre o tempo no intitulado "História da Eternidade". Foucault deu o ultimato à verdade ao dizer que é uma construção do discurso pelas instituições e sua validade depende da sociedade que o emite ou receba. Com uma realidade tão flexível, o que devemos considerar como ficção?

Hoje, fala-se de diversos subgêneros dentro do gênero ficcional. Há o de fantasia, como o mais absurdo, o de ficção científica, o histórico, e assim vai numa infinitude de classes. Todos em oposição ao que se denomina "não-ficção", que são, em sua maioria, textos de divulgação científica, auto-ajuda, ou que versem sobre alguma ciência ou disciplina acadêmica. No entanto, quanto mais conhecemos a realidade, mais nos resulta difícil a decisão de reconhecer a ficção, já que qualquer texto escrito por um homem deve passar por uma seleção criativa e ter como base a realidade. Se diz ou não a verdade, ao contrário do que pensava Platão, tudo nos leva a conclusão que menos tem a ver com a ficção em si e mais com a sociedade.  A tentativa de definir a ficção se faz exponencialmente mais viável a través de uma mirada histórica, visando épocas e sociedades anteriores, e se confunde com a história mesma da verdade e da mentira. Então aqui me detenho. Quem sabe seja um tema para um próximo artigo sobre a relativização da verdade e do uso da linguagem como necessário à existência da consciência humana, dois tópicos de suma importância para tentarmos entender o que reconhecemos por ficção hoje em dia. Muito provavelmente, vivemos em uma ficção não escrita que eu denominaria experiência de viver


Texto escrito por Rafael S. Agostinho Jorge, em colaboração para o site.

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